quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Homem Bicentenário

Mais conhecido como o filme do Robin Williams, O Homem Bicentenário é baseado em um conto do mestre da ficção científica Isaac Asimov que provavelmente foi o escritor que mais escreveu sobre robôs na vida. Este conto está incluso no livro Visões de Robô, que estou lendo atualmente, e não é tão brilhante quanto eu achava que seria nem em relação à outros textos do mesmo autor. Mesmo assim vale a leitura, principalmente por ser de fácil entendimento e curto, oposto do filme que é muito longo. Sempre que leio o livro que deu origem a um filme, gosto de comentar a relação e a adaptação do texto à imagem. Exercício que aprecio para aqueles que não leram a obra original.

Até que eles passaram bem a idéia principal, mas fizeram dezenas de adaptações que prolongaram o filme desnecessariamente. Tudo bem que para conseguir um longa metragem baseado em um conto, talvez seja necessário a inclusão de alguns fatos que alimentem mais um aspecto da história deixando-a mais profunda. O problema é quando o roteirista se empolga e inventa muitos acontecimentos que não fazem parte do original, excluir partes interessantes e, o que é pior, alterar cenas.

Adaptação é uma coisa complicada, nunca vai agradar 100% dos fãs e a gente já tem uma certa suspensão de descrença para aceitar o que vier. Mas o que mais causa irrita no filme é a história direcionada à família, mais água com açúcar, comédia romântica. Não me entenda mal, eu gostei do filme. Só que o Robin Williams já tem cara de sessão da tarde e as comédias que faz também são do mesmo naipe.

Vamos por partes. A parte inicial onde Andrew, o robô, começa a se desenvolver com o primeiro senhor é excelente, fiel ao original. Só que percebemos a necessidade do diretor de criar alguns conflitos desde já, como a irmã da menininha ser malvada. No original não existe isto, a família é ótima. Posteriormente o filho da menininha vai ser um dos personagens que mais vão ajudar Andrew a progredir, mas no filme é retratado com a mesma mesquinhez da outra menina. No conto, quem faz a vez dos vilões é a sociedade preconceituosa da rua, são personagens aleatórios de fora.

Uma das coisas que mais irritam no filme e que não existe no texto é o romance que o Robin Williams tem com a neta da menininha. Uma enrolação água com açúcar bem chata e sem necessidade. A motivação inicial do personagem não precisava deste incentivo a mais, ele já queria se transformar em humano desde o início. O fato dele se desenvolver em relação a criação de órgãos artificiais para uso dos humanos foi fielmente seguida do conto. Mas ele que fez tudo sozinho, não teve ajuda daquele cientista gordinho e da robô fêmea do filme.

E não é todo mundo que tem seu robô no futuro, como é mostrado no filme. No conto, só alguns privilegiados tem este privilégio. E o primeiro senhor dele é um político, um senador, por isto a oportunidade de ter um desses. Logo depois de descobrir que Andrew pensa por si só, a US Robotics interrompe a venda de robôs e começa apenas a arrendá-los com uma mente coletiva ligada à sede da empresa. Com isto os futuros robôs não poderiam mais ter a possibilidade de desenvolver uma mente única.

De resto, a discussão sobre o que define ser um humano e de como um robô pode se transformar em um é a mesma em ambas as mídias e muito interessante.

domingo, 20 de abril de 2014

Homem da ciência, Homem da fé

Eu tenho um pensamento à base da lógica, vejo as coisas através de fatos e conseqüências onde tudo é explicado por causa das ações que tomamos como uma matemática onde o resultado de dois mais dois sempre dará quatro. Apesar de ter sentimentos como qualquer outro, eu me considero um homem da razão. Uma decisão a ser tomada não pode se deixar ser influenciada pela emoção que sempre estraga tudo. Uma emoção forte sempre atrapalha o técnico, o pensamento se dispersa, a concentração vai pro espaço e aquela pessoa que tem o conhecimento não consegue resolver o problema por causa da interferência do lado sentimental. É uma fraqueza. Uma pessoa que tenha um bom autocontrole dos seus sentimentos estará fadada ao sucesso, conseguirá atingir seus objetivos mais facilmente do que aqueles que se perdem com questões menores durante o percurso.

Fazendo uma analogia com o esporte, atletas com autocontrole conseguem se sobressair em suas respectivas modalidades. Federer, o tenista mais completo e vitorioso da história do tênis é conhecido por ser frio durante o jogo que pode ter até quatro horas de duração com muitos momentos de alta e baixa. Sua concentração é grande não se deixando abalar com os percalços pelos quais passa durante a partida, parece uma geladeira. Gostaria de ser o mais próximo desses exemplos de superação.

É por causa dessa certeza que me perturba o fato de que as emoções causam um grande impacto sobre mim. Acontecimentos a minha volta com pessoas das quais tenho carinho e fatos que ocorrem comigo de modo emocional causam estragos que não sei como lidar. É como um fracasso pra mim que pensa racionalmente. A vida é cheia de decepções e temos que lidar com elas no dia a dia, mas algumas realmente fazem efeito negativo sobre mim que eu deveria relevar, ignorar e superar. Mas isto não acontece. O negativismo fica e não sai, os pensamentos começam a rodar na minha mente como se fosse um vírus, impedindo que eu faça o que deve ser feito.

Amigos meus dizem que eles não estão nem ai com a situação de merda na qual passam. Estão como um cavalo num desfile, cagando e andando. Algumas vezes eu acho que eles mentem pra se mostrarem superiores. Outras vezes até acredito que eles não ligam e invejo seu autocontrole emocional, procurando usá-los como exemplos nas próximas vezes que sofrer um impacto de mesma natureza.

Gostaria de ter menos emoção e mais razão, como um robô, para que estes fatos não me prejudiquem como ser humano em busca de minhas aspirações. Será que é por isso que adoro Asimov? Seria bom ser como os Vulcanos e reprimir nossos sentimentos.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Polícia e estudantes

Devido ao recente passado brasileiro de controle do exército na política nacional e repressão dos jovens e da liberdade de ir e vir e de pensamento, entendo a preocupação que a população tem em relação da polícia com a população. Mas o oposto da ditadura é a anarquia, que só beneficia arruaceiros e bandidos de todo tipo. A anarquia, a meu ver, é como o apocalipse onde não existem leis, controles e direitos, vale a opinião do mais forte, sem escrúpulos. O cidadão de bem perde com os dois cenários opostos, a idéia seria algo no meio, com certo controle sem ser muito intensivo.

A polícia entrar no campus da USP é fato pra sair nos jornais de todo o país como um ultraje, uma volta do controle dos universitários, uma repressão. Acho um absurdo esta visão esquerdista. Nem na época quando eu tinha um pensamento de esquerda estrema e adorava partidos como o PSTU eu concordava com esta visão. Sem a polícia, um controle por menor que for a barbárie reinará. Vários casos de assaltos e mortes vivem ocorrendo na cidade universitária com estudantes vítimas sem ninguém a quem recorrer. Alguns estudantes se julgam no direito de fazer o que bem entendem sem nenhum controle, invadem prédio da reitoria, depredam equipamentos pagos com os impostos da população, fumam maconha, não tem aulas e ainda culpam o governo. Parecem crianças. Sei que podem ter problemas de gestão que merecem protestos de algum tipo para reivindicar seus direitos, mas nada justifica as coisas que ocorrem.

Os movimentos de protestos de 2013 foram simbólicos e mostraram que a população pode sim mudar os rumos de um país se tiver vontade e perseverança. Pena que acabou rápido e nada aconteceu depois, foi uma modinha de inverno por causa de R$0,20. O pior das manifestações foram os crimes, a bandidagem, os roubos, a depredação e toda a violência. A polícia interviu agressiva e sem preparo, imbecil, o que aumentou mais a ira dos revoltosos. Quando viu que fez merda, recuou. Mas parece que eles mudam da água para o vinho, é oito ou oitenta. A partir deste fato os policiais nada faziam deixando bandidos praticarem grande quantidade de crimes sem reação da polícia que não protegiam os cidadãos de bem. Se a polícia reprime, são repressores. Se não reprimem são incompetentes.

As universidades são os centros de produção de cabeças pensantes do futuro que preparam novos líderes, novos políticos, gente que pode mudar nossa realidade e tentar transformar nossas vidas para melhor. Mas os estudantes também fazem merda.

sábado, 5 de abril de 2014

O Segredo de Luisa

A princípio não tinha nenhuma expectativa em relação a este livro que foi me oferecido por minha irmã que emprestou dizendo ser bom. A capa era bonita e o título instigante, logo inclui na minha lista de leitura. Com algumas páginas lidas consegui captar a mensagem e a idéia central do autor. O livro é uma tentativa de misturar texto técnico com um romance, uma história fictícia, onde se conta como uma pessoa pode criar de desenvolver uma nova empresa do nada, é um livro de empreendedorismo.

O autor, conforme constatei no prefácio é um teórico do assunto, já tendo lançado vários títulos a respeito e este livro é uma tentativa de facilitar a compreensão do tema utilizando de uma história mais de fácil assimilação pela população em geral, tática empregada em diversos livros de assuntos mais complicados. No início a história de Luísa até me pegou e comecei a ver algumas similaridades com minhas aspirações de crescimento, gera uma empatia com os personagens e suas motivações e acho que todo mundo tem uma família como a do personagem principal.

Mas tenho uma crítica ao livro. Conforme a história da menina do interior de Minas Gerais se desenrola, no texto o autor introduz termos referentes ao empreendedorismo que ele julga que merece maiores explicações ao leitor. Então são inseridos caixas de notas explicativas durante todo o livro, não apenas com pequenas informações, mas boxes de páginas inteiras com informação técnica do que se é tratado na história. Não sou contra quadrados onde tem mais informações sobre o texto, mas acho que foi demais, em grande quantidade. Às vezes estávamos entretidos com a história de Luisa e de repente apareciam três boxes pra explicar qualquer coisa em relação à construção de uma empresa. E a história convencional continuava páginas a seguir, onde era novamente interrompida para mais explicações.

Não achei válida esta mistura de texto técnico e ficcional por atrapalhar a assimilação dos dois públicos. Quem procura e gosta apenas da história da Luisa, vai odiar estes textos explicativos. Quem quer mais informações sobre o assunto de empreendedorismo, vai achar que tem muito blábláblá e pouco conteúdo. Em minha opinião o livro deveria ter apenas o texto ficcional. Se a pessoa se interessar, compraria um segundo livro apenas com as informações técnicas sobre como abrir uma empresa. Enfim.

Eu me identifiquei com a história e percebi que abrir uma empresa é muito mais difícil do que imaginamos. No livro, a Luisa sabe fazer uma excelente goiabada, daquelas caseiras vendidas em cidades do interior de Minas Gerais. Logo ela pensa em comercializar em grande escala já que seu produto é amplamente aceito pela população. Quantas vezes a gente se julga bom numa coisa e tenta ganhar dinheiro com aquela atividade? Parece que a coisa mais difícil é produzir o produto, o resto vem mais fácil. No livro é ensinado exatamente o contrário. Realizar o serviço é fácil, administrar uma empresa que é o mais complicado. Com a leitura percebi que é uma coisa extremamente difícil mesmo. Não que eu não soubesse que seria complicado, mas é mais do que eu pensava.

Apesar dos pontos negativos que levantei, aconselho a leitura para as pessoas que tem interesse em começar um novo negócio, pelo menos para ter uma leve idéia das agruras do que se espera. Mas não aconselho para quem busca apenas uma historinha, não vale a pena.

sábado, 29 de março de 2014

Driblando no Anhangabaú

Trabalho próximo ao Vale do Anhangabaú, bem no centro velho de São Paulo, onde ocorrem grandes eventos organizados tanto pelo governo quanto pela população e também tem muitos moradores de rua e cheiradores de cola como também assaltantes em geral. Nunca fui alvo de um apesar de passar por lá diariamente, mas o risco sempre existe.

Numa tarde qualquer, saindo do serviço senti vontade de tomar uma cerveja. O dia foi puxado e sai um pouco com a cabeça ainda se desgrudando do serviço, ainda não tinha me desligado totalmente. Comprei uma latinha e sai caminhando e bebendo. O metrô mais perto era da São Bento, mas eu não queria chegar próximo à catraca do metro e ter que ficar parado tomando a cerveja pra só conseguir entrar assim que esvaziasse a lata. Eu queria ir tomando e quando chegasse na hora de entrar no metro, já estivesse vazia. Então decidi ir caminhando pelo vale e entrar na estação Anhangabaú que ficava do outro lado e pra mim não funcionaria do mesmo jeito. Daria tempo de beber tranquilamente, aproveitar uma leve caminhada de alguns minutos e ainda mais ouvindo uma música no celular.

No meio do caminho vejo vinho em minha direção um mendigo banhado em sangue, com a cabeça toda vermelha pingando, uma cena chocante. Ele estava segurando um jornal amassado na cabeça, provavelmente onde tinha sofrido o ferimento, tentando conter o sangue. A única coisa que eu e outra pessoa que estava passando na hora foi para com uma cara de espanto e observar a cena. Ele passou muito rapidamente, com se estivesse se afastando de algum local, sumindo em alguns segundos ao se dirigir sentido Sta. Efigênia. Fiquei pensando o que teria acontecido, ainda pouco atordoado com a imagem.

Voltei a caminhar para o meu destino original quando vejo três caras vindo ao meu encontro. Não eram mendigos e nem moradores de rua pelas suas roupas, mas tinham uma atitude de malandro de bandido. Aparentemente eram eles que tinham agredido aquele mendigo, pois apareceram quase imediatamente depois. Na minha frente iam duas mulheres juntas e um deles mexeu com elas. Mas como estava perto eles desistiram das moças e vieram diretamente pra mim. Na hora eu me lembrei de um vídeo que tinha assistido naquele dia do perigo de se usar o celular como mp3. O fone de ouvido indica ao ladrão onde esta exatamente o celular a ser roubado. Eu tinha sido pego em flagrante e nem deu tempo de tirar os fones do ouvido já que eles estavam bem diante de mim.

Tentei desviar, mas eles estavam em três e bloquearam a passagem. Na hora pensei no mendigo agredido e no meu celular no bolso, só imaginei o pior. E o cara que tinha mexido com as meninas veio com aquele jeito malandro de andar dizendo: “E esse celular ai?”. Pensei “fudeu!”. Eu ainda estava segurando a latinha de cerveja na mão. Não sei de onde surgiu a ideia, mas executei imediatamente. Estendi a lata, ainda quase cheia, ao cara e ofereci confiante e com atitude: “Quer uma cerveja ai?”. Ele esboçou um sorriso e pegou a lata da minha mão virando para seus comparsas. Neste micro segundo eu me desviei e segui sentido ao metro na mesma hora, driblando-os.

Eu poderia ter sido agredido, ter tido um celular relativamente caro e dinheiro roubados, mas fui salvo por uma cerveja de R$2,50 semi bebida.